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Quinta-Feira, 07/02/2019 - 09h24

Exposição com obras de arte eróticas realistas acontece em Belém

Exposição com obras de arte eróticas realistas acontece em Belém (Foto: Reprodução/Tainá Maneschy)
Exposição com obras de arte eróticas realistas acontece em Belém (Foto: Reprodução/Tainá Maneschy)

Após passarem por Lisboa e São Paulo, as ilustrações da paraense Tainá Maneschy poderão ser conferidas hoje, com a exposição “Dezessete/Dezoito”, no Casarão Floresta Sonora. Ilustradora e artista visual formada em Cinema e pós-graduada em História da Arte, ela vive atualmente em Portugal, onde se dedica às artes visuais, especialmente, o universo da arte erótica realista. A mostra em Belém também conta com roda de conversa sobre protagonismo feminino, pocket show de Camila Honda e karaokê.

Tainá conta seu trabalho foi motivado por causa das manifestações contrárias à mostra "Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", em Porto Alegre, em 2017, uma reação conservadora que fez com que o Santander Cultural, que sediava a mostra, antecipasse seu fim, para o choque dos artistas. Só o fato da existência de uma exposição com a temática LGBTQI+ junto a questões da sexualidade e raciais já foi algo muito chamativo para a artista.

Uma obra pela qual ela afirma ter sentido um carinho especial foi “Criança Viada”, de Bia Leite, alvo de grande repercussão. “Eu achei muito bonita e acolhedora. Na minha visão, não tem nada absolutamente de sexualizado nessa obra. É uma forma de representar crianças que a gente conhece, que desde cedo fogem do padrão da heteronormatividade e está tudo bem, é normal, você não pode se achar menos por isso. Achei uma obra de muito amor”, afirma Tainá.

O interesse dela por arte erótica é anterior a seu envolvimento com as artes visuais - ela só começou a desenhar em 2016. “Eu acho bonito e interessante a forma como muitos artistas - e hoje eu tento seguir essa linha também - conseguem despertar aquela coisa dentro de você com uma imagem esteticamente bonita, bem trabalhada. No meu caso, eu faço aquarela, mas tem outros tipos de meio”, comenta.

Mas realmente se dedicar à arte erótica só veio com a censura à exposição “Queermuseu”. “Eu tinha medo, tinha meus próprios pudores, achava que eu não ia ser boa o suficiente, enfim, mil questões que todo artista passa. E quando isso foi tirado, quando foi fechada a exposição, aquilo me deu um estalo de ‘nossa! será que eu vou conseguir tratar esse conteúdo ainda nos próximos anos?’. Eu percebi que eu não tinha mais tempo a perder e resolvi começar a trabalhar com sexualidade dentro da arte”.

Ir para o lado feminino envolve ela própria ser mulher e ser feminista, considera. “Escolhi trabalhar os diversos corpos da mulher, não só o da mulher padrão que a gente está acostumado a ver, corpos diferentes e desejos diferentes; e botar a mulher como o centro do prazer sexual foi uma coisa meio natural durante esses dois anos em que estou pesquisando isso”. Foi esse período que deu nome à exposição, os anos de 2017 e 2018. “E ainda pretendo trabalhar com isso, mas esses dois anos são o período em que me encantei e decidi fazer disso a minha linha de trabalho”, conta.

Artista foi censura pelo Instagram


Tainá Maneschy é formada em Cinema, reside em Portugal e, por dois anos (2017 e 2018), veio pesquisando o tema da sexualidade feminina, que retrata em aquarelas. Foto: Divulgação.

 

Tainá faz parte de uma leva de artistas que viram no Instagram uma vitrine popular e democrática para expor seus trabalhos, dialogar com os espectadores e experimentar técnicas e temas. Entre eles, o erótico, que historicamente sempre esteve centrado em torno do espectador masculino, renasceu em uma cena onde a mulher é a artista, a participante e a observadora do processo sexual. Uma de suas obras, por exemplo, retrata um homem fazendo sexo oral, enquanto o espectador observa sob a perspectiva feminina, de cima para baixo.

"Quero mostrar a perspectiva feminina, porque a mulher também sente prazer, mulher também gosta disso", diz. Mas, para esse conceito se ver livre do que muitos artistas chamam de censura, ainda falta combinar algumas coisas com o Instagram e outras plataformas de publicação. Mês passado, sua conta no Instagram, que tinha cerca de 10 mil seguidores e até alguns admiradores famosos - como a cantora Céu, Djamila Ribeiro, a apresentadora Fernanda Lima e o rapper BNegão foi deletada por “infringir os termos de uso”.

A artista experimentou novamente aquela sensação de 2017, trazida pelo caso “Queermuseu”. “Foi desesperador. Eu tinha uma janela muito boa no Instagram, onde eu tinha uma comunicação direta com o meu público, me conectava com outros artistas que eu admiro muito e nunca imaginava que um dia notariam meu trabalho. E a princípio eu senti tudo isso perdido, mas me acalmei e percebi que tudo que eu construí até aqui é meu e o Instagram não vai tirar isso de mim”, desabafa.

Com uma nova conta, aberta há uma semana, ela já conseguiu retomar quase 2 mil seguidores. E diz não compreender a ação de quem se uniu para derrubar a página. “Se o usuário não gosta do conteúdo que eu posto, ele pode não me seguir. Importante pontuar que, segundo as próprias diretrizes do Instagram, nudez em obras de arte não é proibido. Em seu aviso, ele afirma que deletou a minha conta por ‘oferecer serviços sexuais’. O que não era o caso, era uma página de artista”, denuncia.

Tainá destaca que apesar da situação que passou, as redes sociais abrigam uma grande cena de arte erótica. “Uma pena que o Instagram feche os olhos pra essa cena dentro do aplicativo por… Moralismo, talvez? Eu tenho discutido isso com outros artistas que também tiveram suas contas canceladas e não dá pra calar, não dá para parar. Nossa arte está aí, eu não sou a única”, afirma. Entre aqueles que a seguem por gostar de seu trabalho, a artista diz encontrar grande acolhimento e mesmo conforto. 

“Tem mulheres que olham e comentam ‘nossa, parece comigo’ ou ‘esse mamilo que você pintou é parecido com o meu’. E essa identificação das pessoas, que, muitas vezes, não se identificam com o corpo de mulher apresentado na mídia, se sentem acolhidas. A única coisa que de negativo são homens que não conheço e simplesmente acham por bem enviar uma foto do pênis para mim. Me sinto mal, me sinto assediada. Não só eu, eles assediam as minhas seguidoras também”, relata.

Mesmo antes da página, muitas postagens dela foram censuradas antes, delatando claramente o tabu que ainda existe sobre o corpo, a sexualidade e o erotismo relacionado à perspectiva feminina. “Todas retratavam o corpo de mulher - ou era um casal de lésbicas, ou era um mamilo ou era uma vulva. Eu tenho muitos trabalhos que mostram pênis explicitamente, e nunca tive nenhum deles deletado. Acho que quando a mulher não está ali pra satisfazer um prazer masculino ou se colocando em uma posição de submissão, isso incomoda”, afirma.

A partir da exposição “Dezessete/Dezoito”, que trará 15 obras originais às Belém, todas em aquarela, será uma boa oportunidade para debater todos esses temas ao vivo com o público. “É uma honra que esse tempo todo de trabalho tenha virado algo com potencial de inspirar as mulheres, sejam elas de Belém ou de qualquer lugar”, comenta Tainá. “É um momento para reunir as manas de Belém, celebrar nosso momento, falar sobre liberdade e atitude feminina - seja ela artística, criativa ou discursiva”, finaliza.

Visite: 

 

Exposição “Dezessete/Dezoito”, de Tainá Maneschy

Quando: Hoje, a partir das 16h, com roda de conversa às 19h, e pocket show às 20h

Onde: Casarão Floresta Sonora (Rua Treze de Maio, 363 – Campina)

Quanto: Gratuito até às 16h e R$5 a partir das 20h

(Lais Azevedo/Diário do Pará)


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