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Sem ‘prometer loucuras’, Rueda quer ver o sócio como ‘dono’ do Santos

Quinta-Feira, 07/12/2017, 07:55:02 - Atualizado em 07/12/2017, 07:55:02 Ver comentário(s) A- A+

Sem ‘prometer loucuras’, Rueda quer ver o sócio como ‘dono’ do Santos (Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

No quesito eleições, pode-se dizer que Andres Rueda é mais o inexperiente dos quatro candidatos à presidência do Santos, afinal, ele é o único que não participou do último pleito, em 2014. Apesar disso, o matemático e empresário de 62 anos tem plena convicção de que é o mais preparado para vencer a disputa do próximo sábado, a partir das 10h (de Brasília).

Terceiro entrevistado da série feita pela Gazeta Esportiva, Rueda tem como principal carro-chefe de campanha a honestidade. Sem ‘prometer loucuras’, ele descartou assumir o Pacaembu ou construir uma arena e tem como objetivo fazer o sócio do Peixe sentir-se como o verdadeiro ‘dono do clube’.

Ex-membro do Comitê de Gestão do atual mandatário Modesto Roma Júnior, Rueda representa a chapa ‘Santástica União’ e tem José Renato Quaresma, também ex-integrante do CG, como vice.

No pleito do próximo sábado, Rueda irá concorrer com Modesto, da ‘Santos Gigante’, José Carlos Peres, da chapa ‘Somos Todos Santos’, e Nabil Khaznadar, do grupo ‘O Santos Que Queremos’.

Leia na íntegra a entrevista com Andres Rueda:

Gazeta Esportiva: Por que o senhor deseja ser presidente do Santos?

Rueda: “Santista sou desde sempre, mas estou realmente ativo na parte política do Santos desde 2001. Faço parte do conselho por três gestões. Fui convidado em 2015 pelo presidente Modesto Roma para fazer parte do Comitê de Gestão, mesmo não estando na chapa dele. Entrei imaginando que o CG seguisse as regras do estatuto do clube, mas não era bem assim. Fiquei oito meses lá e teve um caso que foi a gota d’água, que foi a venda do atacante Geuvânio. Eu e mais alguns companheiros do comitê ficamos sete horas negociando a venda do jogador diretamente com um proprietário de parte dos direitos econômicos do atleta. Basicamente fechamos um acordo, onde o Geuvânio seria vendido por 16 milhões de euros e o proprietário abriria mão de 1 milhão de euros da parte dele. Como a negociação não teve envolvimento de nenhum empresário, não seria necessário pagar comissão. Pois bem, no outro dia eu acordei e li que o Geuvânio foi vendido por 11 milhões de euros e foi paga uma comissão para empresário. Aquilo me fez sentir abusado e desrespeitado. Pensei ‘o que estou fazendo aqui?’ E então resolvi deixar o CG. Mesmo assim, uma coisa ficou batendo na minha cabeça, pois ainda queria ajudar o clube. Então peguei um papel, criei alguns princípios de gestão, achando que conseguiria colocar o Santos nos trilhos”.

Gazeta Esportiva: A utilização correta do Comitê Gestor faz parte dos seus princípios então? Você acredita que o CG não deve ser extinguido?

Rueda: “O Comitê de Gestão tem que existir, mas ele precisa funcionar da maneira para qual foi criado. As decisões precisam ser tomadas de maneira consensual. Se funcionasse assim há mais tempo, eu duvido que a compra do Damião teria sido aprovada pelo CG, como também duvido que o Geuvânio teria sido vendido nas condições que a atual gestão fez. Notei que com alguns ajustes, conseguiria melhorar a gestão. Coloquei no papel, o que chamei de princípios. O primeiro era muito claro: que o CG tomasse as decisões de forma colegiada. Para isso, reuniões gravadas, atas registradas em cartório, voto aberto de todos os participantes, cada um se comprometer com que está decidindo. Além disso, hoje os cargos do CG são escolhidos por indicação do presidente, o que acho amador. O Comitê também precisa passar por uma eleição. Outro princípio seria a real profissionalização do clube. O clube não tem um organograma forma. Em toda a eleição os cargos são utilizados como moeda de troca para apoio político. Isso não é uma crítica a atual gestão, afinal, é um costuma enraizado no Santos e em todos os clubes do Brasil. Vendo tudo isso, planejei criar um organograma com todas as diretorias, gerencias e departamentos do clube. Cada departamento terá seu quadro de funcionários necessários. Colocarei o perfil de cada cargo e o salário base que é pago em Santos. Somando tudo isso, teremos na mão a quantidade de funcionários que o clube precisa. Nesse organograma eu coloquei uma auditoria interna e uma gerência de relacionamento com os sócios. Se for eleito, vou levar para a aprovação do Conselho esse organograma com a quantidade de funcionários. Isso será uma maneira de tirar esse hábito de troca de cargos por apoio político. Depois disso eu comecei a procurar grupos políticos interessados nesse modelo e o que mais vi foi gente interessada em cargo, troca de favores, etc. Porém, conseguimos formar 18 grupos interessados apenas no bem do Santos, sem pensar em cargos. Assim surgiu a Santástica União. De maneira democrática, meu nome foi escolhido para ser o candidato, enquanto Quaresma ficou como vice”.

Gazeta Esportiva: Quais são os principais pontos da sua campanha de governo?

Rueda: “Se você pegar o programa de trabalho das quatro chapas dessa eleição e buscar o programa das cinco chapas que participaram da última, se colocar na mesa, você vai perceber que tudo é praticamente igual. Todo mundo sabe o que o clube precisa, que é alongar dívidas, tratar melhor o sócio rei, ter time competitivo, etc. Porém, ninguém faz. Mais do que um programa de trabalho, o nosso comprometimento é de realmente fazer as coisas que o clube precisa, para chegar no final do mandato e prestar conta. Eu, como matemático, adoro prestar conta. É o melhor momento do gestor dizer que conseguiu cumprir o que se comprometeu. Quero chegar daqui três, pegar nosso programa de trabalho e dizer: ‘Está aqui, conseguimos fazer 70% do que prometemos. Faltou 30% porque não deu tempo, não tivemos competência ou não conseguimos’. Mas queremos deixar um bom legado. Hoje em dia são as mesmas respostas, mas nada sai do papel”.

Gazeta Esportiva: Muito se fala hoje sobre a rixa dos santistas que moram na Baixada com os que residem na Grande São Paulo. Como resolver isso?

Rueda: “No fundo somos todos torcedores do Santos. A torcida tem o direito de pensar na emoção. Agora o sócio não. Ele tem o dever de pensar com a razão também, entendendo que um clube bem gerido é o primeiro passa para conquistar títulos. Nós percebemos que a torcida está distante do clube. Tem alguma coisa errada e o programa não está em Santos ou em São Paulo. A sociedade mudou. Existem técnicas para conhecer seu sócio e seu torcedor. Uma empresa precisa conhecer seu cliente, pois se ele criar um produto que o cliente não goste, ela vai quebrar. Precisa ser feito um estudo. A sociedade mudou. O jovem hoje prefere ficar em casa jogando videogame. Temos que criar modelos para atrair esse público. No nosso projeto, o sócio adimplente de Santos terá transporte de graça para São Paulo, e vice-versa. Óbvio que a nossa casa é a Vila Belmiro. Temos de ter um equilíbrio com essa torcida de Santos, jogar na Vila e em São Paulo, não necessariamente no Pacaembu.

Gazeta Esportiva: Tem candidato prometendo assumir o Pacaembu, outro quer construir arena. O Andres Rueda pensa sobre isso?”

Rueda: “Dizer que vai construir arena é mentir para o sócio. Não tem condição financeira alguma para isso. O investidor que erguer o estádio vai querer que o Santos jogue sempre aqui. Sendo assim, o clube perderá a vantagem de aproveitar a torcida grande nas cidades de Santos e São Paulo. Ficará preso só em um local. Depois, ficamos sabendo que o clube só teria 40% da renda do estádio após 30 anos. Negócio sem sentido. Quanto ao Pacaembu, ele está em processo licitatório. E qualquer negociação para utilizar o estádio, ela precisará ser feita com quem ganhar a licitação. Se isso não acontecer, nós temos que sentar com a Prefeitura de São Paulo e negociar condições melhores para o aluguel do Pacaembu. É vergonhoso o que cobram para jogar lá. O Santos precisa do Pacaembu. Mas o Pacaembu precisa muito mais do Santos. Isso abre um leque onde podemos negociar e diminuir esses valores. Caso não seja possível, podemos jogar em outros locais”.

Gazeta Esportiva: É viável uma reforma ou ampliação da Vila?

Rueda: “Minha vontade seria aumentar a Vila para 40 mil pessoas. Mas não é assim que a banda toca. Temos que pegar um pessoal altamente especializado na questão e propor alternativas para o Comitê de Gestão discutir. Alternativas completas, explicando o que precisa ser arrumado e como fazer. Mas precisamos de patrocinadores que ajudem nesse tipo de mudança”.

Gazeta Esportiva: Como vai ser o relacionamento de Andres Rueda com as torcidas organizadas do Santos? Elas precisam de apoio do clube?

Rueda: “A torcida organizada é a vida do estádio. Eu aprendi a ver o Santos jogando no mundo inteiro, onde você imaginava que não veria ninguém, e tinha a torcida lá. Vemos a torcida organizada com bons olhos. Mas temos que sentar na mesa, colocar os pingos nos is e ajudar da maneira que pudermos”.

Gazeta Esportiva: Como você avalia a situação das categorias de base do Santos? E recentemente as promessas Rodrygo e Yuri Alberto foram promovidas ao time profissional. Ainda é pouco?

Rueda: “Nós subimos esses jovens por que? Porque eles estavam prontos ou o time estava desesperado!? Isso precisa ser mudado. Precisamos de um planejamento melhor na base. A base é a nossa coroa e precisa de uma reformulação. Vemos várias denúncias sobre coisas erradas acontecem ali, que está infectada de empresários, etc. O Santos é um dos maiores clubes do mundo, mas com receita de time intermediário. A base que nos faz chegar em igualdade com os outros. Ela é uma indústria. Precisamos de uma fiscalização dentro da base, acabar com a troca de favores. Imaginamos a base com estrutura que forme jogadores e cidadãos. Não podemos esquecer que de 100 meninos, às vezes 98 voltam para o mercado. E o clube tem obrigação social de preparar eles para o mundo. Investimos e temos que colher frutos. O atleta que der certo precisa ficar aqui por mais tempo, para nos ajudar a ganhar títulos e depois ser vendido. Girando a receita do clube”

Gazeta Esportiva: De que forma você vê a relação do Santos com seus associados? Algo de diferente precisa ser feito? Como fazer para atrair o torcedor e aumentar o número de sócios?

Rueda: “Precisamos colocar na cabeça do sócio que ele é dono do Santos. Como dono, ele precisa ter um tratamento que não tem hoje. Atualmente o associado tem dificuldade para tudo, até pagar boleto. É um absurdo isso. Vamos deixar claro dentro do que o sócio não é aquele cara chato, que reclama. Ele é o verdadeiro dono do clube”.

Gazeta Esportiva: Como você vê a relação do Santos com seus ídolos, principalmente Pelé e Neymar. Acredita que existe um distanciamento do clube com eles? Se sim, como consertar isso?

Rueda: “Teve briga com todo mundo, com Neymar, Pelé, Robinho, etc. Uma empresa não consegue sobreviver só gerando atrito com todos os seus relacionados. A marca Santos é muito mal explorada. Dentro do futebol, eu diria que é a marca que tem mais potencial no mundo. Graças a uma geração que tivemos lá atrás, com Pelé e cia., graças até à diretoria daquela época, que abdicou até ganhar campeonato para expor a marca lá fora, em qualquer lugar que você vá, Santos e Pelé estão associados. Nossa marca estava aliada a uma imagem vitoriosa, de ter um gênio como o Pelé. Temos que aproveitar melhor nosso ídolos sim”.

Gazeta Esportiva: Hoje o Santos tem Elano como treinador. Se eleito, o senhor pretende efetivar o Elano ou buscar um novo técnico? Se for buscar, já tem alguns nomes em mente?

Rueda: “Por coerência, não podemos citar nomes para nada. Porém, queremos um técnico que tenha um perfil vencedor, que esteja completamente sintonizado com o DNA do clube. A nossa torcida não fica satisfeita apenas com a vitória. Queremos ganhar jogando bonito. E isso é motivo de orgulho para nós. Precisamos de um treinador que também entenda a situação financeira do clube. Um ponto principal para o futuro técnico é que ele entenda que a direção deve dar o veredicto final sobre a contratação de um atleta. Tem treinador que obriga o clube a comprar vários jogadores com contratos longos. O problema é que o técnico é demitido e o clube que fica lá com o problema. Isso precisa mudar”.

Gazeta Esportiva: Com relação a reforços, o que o senhor tem de ideia? Com o Santos garantido na Libertadores de 2018, é fundamental trazer reforços ‘tops’ ou é melhor investir no bom e barato para não comprometer as finanças?

Rueda: “Sem citar nomes, claro, nós já estamos estudando nomes para montar um time competitivo, mesclado. Você disse sobre os jogadores da base que subiram recentemente. Isso precisa ser bem avaliado. Não consigo entender como temos um time sub-23, com mais de 40 jogadores, e quando precisamos de alguém, vamos buscar atletas do sub-17. Algo está errado aí. O clube precisa de contratações certeiras. Hoje não existe um estudo. A equipe manda o empresário buscar um jogador pelo valor X. Qualquer atleta que tenha esse valor, ele vai e compra. Não estuda se tem um atleta melhor pela mesma quantia, ou algum com um custo benefício maior, etc. Antes de precisar na quantidade, temos que ver a qualidade. Porém, tudo será feito com os pés no chão. Não adianta não honrar salários, iludir o torcedor. No nosso modelo, não faremos loucuras. Sem despesas acima do que arrecadamos. Quando isso acontece, somos obrigados a vender até exclusividade de jogador, como aconteceu com o Thiago Maia, onde foram obrigados a vendê-lo para honrar algum compromisso do clube”.

Gazeta Esportiva: O que o torcedor santista pode esperar da chapa ‘Santástica União’?

Rueda: “Eles podem esperar três coisas: honestidade, competência e credibilidade. O resto é resto. Os programas de trabalho são iguais. O sócio pode ter certeza que a nossa chapa entregará exatamente o que se comprometeu. O problema do Santos não é falta de trabalho, é falta de quem o execute de forma correta. É isso que vamos fazer a partir do dia 2 de janeiro. É só bater o currículo de cada candidato. Para gerir uma empresa do porte do Santos, acreditamos ser os mais preparados”.

Fonte: Gazeta Esportiva





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