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ENCONTRO DE MULHERES

Inspiradas por Adélia Prado, nove fotógrafas expõem suas visões sobre o feminino

Segunda-Feira, 04/02/2019, 08:31:25 - Atualizado em 04/02/2019, 08:37:38 Ver comentário(s)

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Inspiradas por Adélia Prado, nove fotógrafas expõem suas visões sobre o feminino (Foto: Evna Moura)
Enva Moura trouxe a água para falar da poética de Adélia e das mulheres. (Foto: Evna Moura)

Imagens que mostram diferentes histórias de mulheres que vivem em lugares distintos do país foram reunidas na exposição “Nós. Inteiras?”, que será inaugurada nesta terça-feira, 5, às 18h30, com entrada gratuita, no Espaço Cultural Banco da Amazônia. A mostra inédita, composta de 21 fotografias de autoria de nove artistas visuais paraenses, homenageia a poeta Adélia Prado a partir dos textos da antologia “Com Licença Poética”, publicada em 2003. 

Com curadoria e edição de Fatinha Silva, Marise Maués e Paula Giordano, a exposição trata sobre o papel feminino na visão dessas nove fotógrafas, que selecionaram imagens que representam esse olhar sobre a mulher. Durante a abertura da mostra, haverá uma performance. Também será exibido um vídeo de Marise Maués, que fará parte na exposição. Além das próprias curadoras, também participam da exposição as fotógrafas Ana Catarina, Elza Lima, Evna Moura, Luciana Magno, Tília Koudela e Úrsula Bahia.

"Escolhemos Adélia Prado porque é uma exposição que adentra o mês de março, quando se comemora o Dia da Mulher. Iremos levantar esse debate sobre o empoderamento que muitas vezes não é compreendido e nem aceito. Não consigo compreender que em pleno século 21 ainda exista tanta violência contra a mulher. De sexo frágil, não temos nada", afirma Fatinha Silva, para quem a força feminina é capaz de mudar a realidade assustadora de violência. 

Úrsula Bahia reuniu imagens sobre a vivência dela com as mulheres do município de Oriximiná, localizado no Baixo Amazonas. "Meu trabalho é documental. Mostra a vivência, cultura, religião, a etnia. Retrata a Comunidade Quilombola Boa Vista Cuminã", conta ela sobre a série de 20 imagens das quais duas estão na mostra. "Estou retomando um trabalho que iniciei em São Paulo, onde cheguei a prestar serviço na Secretaria de Cultura. Acabei fazendo a minha monografia sobre as comunidades quilombolas de São Paulo e a banca [examinadora] me orientou a continuar nessa linha de pesquisa. Fui a Oriximiná a convite do [fotógrafo e curador] Guy Veloso para fazer o Círio de Santo Antônio, que acontece em agosto na cidade e acabou sendo uma retomada”, recorda ela sobre a experiência durou três semanas.

Para a fotógrafa Ana Catarina, nome presente na cena desde a década de 1980, a mostra promove intersecções de poéticas, entre as palavras de Adélia e as imagens. "Trabalho o meu olhar da vida, onde ele cruza com o da Adélia, com essa questão da mulher nesse universo mais amplo. É uma reflexão continua. É nosso recorte daquilo que a gente já vive, então é uma dimensão da fotografia de uma forma poética, da mulher nem sempre suave, mas guerreira, numa imagem de força", descreve.

Obra aberta às subjetividades


A imagem feita por Elza Lima em 2010 no Espelho da Lua só agora será exposta ao público. Foto: Elza Lima

 

Nome referencial da fotografia paraense, Elza Lima tem uma única imagem na mostra, uma foto feita em Nhamundá, no Baixo Amazonas, na fronteira entre os estados do Pará e Amazonas, em 2010, onde ela expõe o que entende sobre esse universo feminino. A foto foi tirada no Espelho da Lua, lugar da lenda do encontro do navegador Francisco Orellanas e as mulheres Amazonas. "Nesse lugar só existe uma família morando. A moça fotografada é filha de um único morador do Espelho da Lua. Reza a lenda que essas mulheres retiravam barro do fundo do rio e costuravam os muiraquitãs e entregavam ao homem com que tinham relações", explica.

Essa temática foi contemplada com o Prêmio Marc Ferrez da Fundação Nacional de Arte - Funarte em 2010. "No equador, um amigo nos levou onde tinha um barco do rio Amazonas. A partir daí eu tive essa ideia de refazer essa representação para mostrar como as lendas se comportavam naquela época e aí surgiu o trabalho", diz a artista.

Mas somente depois de dez anos, Elza acredita que agora é o momento ideal para apresentar a obra. "Ela está vindo à tona pela primeira vez nessa representação, por eu achar que remete ao tema, falando das mulheres. Eu costumo brincar que tem muitas fotos que vêm avançando com o tempo e lá adiante elas se revelam para você. É o que acontece com essa imagem, que representa bem as mulheres ribeirinhas, que dependem da água para sobreviver, mulheres destemidas", analisa.

Ainda sobre esse cenário, Elza conta que espera que os frequentadores façam suas próprias análises e delas retirem uma experiência única. "Achava que essa foto já falava tudo sobre essa relação com a água. Morar nos lugares ribeirinhos, onde não tem água encanada, tu constróis, tiras a alimentação, tudo acontece no rio. É essa relação estreita com a natureza que eu quero mostrar no meu trabalho. Não coloco título nas minhas fotos porque quero que cada pessoa faça sua viagem nelas", considera.

Tempo e arte da fotografia em oficina

"A Cor do Tempo" é o nome da oficina que a fotógrafa Elza Lima minsitra durante três dias, a partir do próximo dia 14, mostrando o trabalho sobre os primórdios da fotografia, em que Elza aborda como a imagem se comporta no tempo.

"Irei falar de várias pessoas que tratam sobre isso. Desde o século 19 e início do século 20 até os dias atuais. Também vou perpassar por vários artistas, poetas, designers, e ainda falar da poesia na imagem, de como esse olhar é construído. Acho que esse olhar é o primeiro aprendizado, um treino", considera.

Mais do que técnicas, a fotógrafa acredita que as pessoas têm de entender que a construção da imagem passa pelo cinema, literatura, poesia. "Terá uma saída fotográfica depois de tudo isso, onde cada participante irá escolher uma imagem e terá que falar sobre ela. Na conversa pretendo enfatizar sobre a escolha, o olhar, o porquê de tal imagem. Haverá uma grande ferramenta onde todos terão voz", adianta.

Qualquer pessoa pode participar da oficina, sem obrigatoriedade de uso de câmera profissional. "Pode levar celular ou câmera fotográfica. Acho que vai ser muito interessante. Serão dias bastante produtivos", acredita Elza, que vem realizando essa oficina há dois anos. 

(Wal Sarges/Diária do Pará) 





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