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Paula Hawkins: conversamos com a autora de 'A Garota do Trem'

Terça-Feira, 12/09/2017, 18:00:03 - Atualizado em 12/09/2017, 18:00:03 Ver comentário(s) A- A+

Paula Hawkins: conversamos com a autora de 'A Garota do Trem' (Foto: Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan))
(Foto: Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan))
Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan)

 

Um lugar perigoso para mulheres encrenqueiras: é assim que o vilarejo de Beckford, na Inglaterra, é descrito em Em Águas Sombrias (Editora Record, 364 páginas, R$ 42,90). Lançado no Brasil em maio deste ano, o livro é o segundo de suspense de Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem, thriller que se tornou best-seller mundial e foi adaptado para os cinemas em 2016.

Hawkins passou anos da carreira trabalhando como jornalista até ser convidada por uma editora para escrever livros de comédia romântica. “Eu gosto do gênero, mas nunca me senti confortável escrevendo sobre ele”, afirmou a escritora em entrevista à GALILEU.

Após quatro livros do tipo, decidiu mudar de rumo. “Estava muito mais interessada nos thrillers, que eram os tipos de livros que gosto de ler.”

Inspirada em grandes autoras contemporâneas do gênero, como Donna Tartt e Kate Atkinson, a autora lançou A Garota do Trem, suspense no qual aborda alcoolismo e violência doméstica.

Emily Blunt no filme de A Garota do Trem (Foto: Divulgação)

 

O sucesso garantiu o novo livro, Em Águas Sombrias, cujos direitos de adaptação cinematográfica já foram adquiridos pela DreamWorks. A história conta, a partir da perspectiva de diversos moradores de Beckford, os casos de mulheres encontradas mortas no rio do vilarejo. A partir das investigações surgem discussões sobre memória, abuso sexual, suicídio e luto.

De passagem pelo Brasil para participar da Bienal do Livro Rio de 2017, Paula Hawkins conversou com a GALILEU sobre seu novo livro, feminismo e processos de escrita. Leia abaixo:

Você chega a se sentir sobrecarregada com a experiência de escrever sobre temas tão pesados?
Muitas coisas horríveis acontecem em Em Águas Sombrias. Escrever da perspectiva da mãe de Katie Whittaker, uma adolescente que é encontrada morta, foi particularmente triste. Em alguns momentos me pergunto o motivo de estar escrevendo sobre esses assuntos, mas acho que é interessante trabalhar essas ideias e possivelmente trazer um pouco de esperança para alguns dos personagens.

Nos seus livros você lida com a parte mais obscura da experiência de ser uma mulher em um mundo conduzido pelos homens. Por que abordar esse tema?
Como uma mulher, é algo sobre o que penso e que me preocupa. A violência doméstica é um problema que persiste no Reino Unido e continua a piorar — não só lá como em outros países, como o Brasil, a Argentina e a Colômbia, onde a violência contra a mulher é aguda. São assuntos importantes de se confrontar e sobre os quais temos que continuar pensando e escrevendo. Algo precisa ser feito e para isso precisamos continuar a trabalhar com esses temas.

Várias séries de TV e livros estão indo na mesma linha e fazendo bastante sucesso. Isso tem a ver com o momento pelo qual estamos passando, em que feminismo e direitos humanos estão sendo mais discutidos do que nunca, ou as pessoas sempre quiseram narrativas do tipo e não tinham acesso a elas?
Acredito que as coisas acontecem em ciclos. Boa parte da cultura é dominada pelo que acontece nos Estados Unidos e o fato de eles terem um presidente que fala daquela forma sobre as mulheres faz com que ocorra discussão em torno do assunto.

Tem muitas coisas acontecendo no mundo que exigem que falemos sobre isso. Incidentes horríveis ocorreram na Índia e levaram a um ressurgimento do feminismo no país e sei que o Brasil passou por episódios horrendos também. Então acredito que há momentos em que as coisas parecem se encaixar e todos querem falar sobre elas: devemos aproveitar o timing e falar o máximo que podemos, para que cheguemos ao momento em que não estamos só falando, estamos de fato resolvendo o problema.

Tem cada vez mais mulheres por trás dessas séries e livros…
Sim, o fato de as mulheres estarem no comando de boa parte do que é popular na cultura também ajuda.

Você se considera feminista?
Com certeza.

Em Em Águas Sombrias você tem vários narradores diferentes. Como foi o processo de escrever de cada perspectiva?
Foi difícil, não planejava ter tantos narradores. Mas conforme fui escrevendo a história, percebi que esse era o melhor jeito que contá-la: ter um coral de vozes, cada uma delas guardando seus próprios segredos, pensei que era melhor o leitor ouvir um pouco de todos. Comecei com Jules e Erin e fui expandindo porque as duas sozinhas não tinham como saber de todos os eventos que estavam acontecendo.

A dificuldade para mim foi decidir quem deveria estar falando em qual momento e decidir qual incidente passaria pela perspectiva de quem, tive que reescrever diversas vezes passagens do livro de perspectivas diferentes para descobrir de qual gostava mais. Algumas narrativas foram mais fáceis que as outras: Louise, a mãe da menina que morreu, foi difícil, já de Nickie Sage gostei porque ela era meio estranha.

E tudo se passa em uma cidade pequena, o que torna tudo ainda mais claustrofóbico…
E essa era a sensação que eu queria que as pessoas tivessem. Cidades pequenas podem ser claustrofóbicas: todo mundo sabe o que todo mundo está fazendo, não dá para fazer nada sem seu vizinho ver ou os pais dos seus amigos te dedurarem. Um está prestando atenção ao outro e acredito que essa claustrofobia faz com que as pessoas ajam em segredo, em particular os mais novos, que não querem que seus pais saibam o que estão fazendo.

Outro tema forte do livro é a memória. O que torna essa abordagem interessante para você?
Sou fascinada pela forma como a memória funciona ou não e como estruturamos diferentes narrativas para nós mesmo. A memória justifica as pessoas que nos tornamos, mas nem sempre é confiável: as pessoas podem mudar a história após anos a repetindo. Às vezes sem querer ou por não encarar um evento traumático e trágico. Outras é só para despistar as pessoas.

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Fonte: Revista Galileu





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