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Performances de drag queens ganham mais brilho

Sexta-Feira, 07/10/2016, 08:56:09 - Atualizado em 07/10/2016, 09:01:25 Ver comentário(s) A- A+

Performances de drag queens ganham mais brilho (Foto: Jader Paes)
(Foto: Jader Paes)

“Você sabe que eu já paguei minhas contas vestido de mulher?”, pergunta o maquiador Ricardo dos Anjos, apresentador do programa “SOS Salvem o Salão” (GNT), para quem ser drag queen está além da vontade de se travestir para ter uma aparência feminina. Para ele, há uma potência política na arte de performar.

Faz muito sentido com o espetáculo a que Belém assiste a mais de trinta anos na Praça da República, a Festa da Chiquita, e que Ricardo conhecerá de perto este ano. Um dos maquiadores requisitados do momento, ele veio a Belém para ministrar um workshop especial para a comunidade LGBT que participa da maior festa profana na agenda do Círio de Nazaré, na noite de sábado, numa parceria entre a organização do evento e a M.A.C. Cosmetics.

“Não tem a ver com vontade de ser mulher ou não. É uma maneira de ser político com seu desejo e sua escolha, aceitar e se fazer aceito, mostrar para quem está próximo que não está se marginalizando, é a liberdade do novo milênio. Vem com boa educação e informação. Porque a pessoa que não tem informação e não é educada o suficiente não consegue absorver a potência desse universo. Porque você pintar a sua cara e sair de casa disposto a fazer alguém sorrir é mais difícil do que sair de casa para botar um prato de comida numa calçada. É você dando o seu interior, externando o seu âmago para de repente levar alegria para algum lugar”, diz o maquiador.

É a 38ª edição do evento profano, que realiza concurso de performistas e shows musicais, após a passagem da Berlinda de Nossa Senhora de Nazaré na Trasladação. “É um movimento tão bonito, tão forte, e tão perseverante, não é uma coisa de agora e já ouvi falar e vocês sabem melhor que eu que no início não era tão fácil assim. Acho isso de extrema importância essa força, acreditar num propósito e levar à frente”, elogia Ricardo.

Um jeito de falar dos problemas

 A arte de performar e se caracterizar como drag queen, para a jornalista e mestranda em antropologia Monique Malcher, trouxe um amadurecimento. “Me impulsionou a refletir sobre as coisas que eu queria falar e me deu força para isso. No trabalho de escritora, sempre alimentei a solidão e a performance chegou como complemento para estar na rua”, diz.

Ela diz que se travestir exige coragem e criou a drag Cílios de Nazaré, uma homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. “Não é uma piada, é um ato para questionar a exclusão do público LGBT. Temos fé e nosso close também faz parte dessa manifestação. Por isso sempre digo que Cílios surge da pedraria da santa e também dessa força feminina que arrasta uma multidão”, justifica.

O estudante universitário Gabriel Antunes, que como drag queen assume o nome Sarita de Gzuis, também defende a performance como instrumento de debate social. “Acredito que é uma maneira de provocar reflexões sobre papel social do gênero, sobre machismo. A virilidade masculina que é desconstruída e hoje descubro que vai além de questões de gênero, envolve a luta das travestis, num país perigoso para homossexuais”, diz.

(Dominik Giusti)

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