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Festa para o folclore e Verequete

Segunda-Feira, 22/08/2016, 12:00:51 - Atualizado em 22/08/2016, 12:00:51 Ver comentário(s) A- A+

Festa para o folclore e Verequete (Foto: Divulgação)
A semana em que se comemora o Dia do Folclore é também a do centenário do mestre do carimbó (Foto: Divulgação)

Matinta Perera, Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça, Curupira, Boto Cor-de-Rosa, Boitatá. Personagens míticos da cultura brasileiras, eles têm data oficial para serem celebrados. Comemora-se hoje o Dia Nacional do Folclore, oficializado em 17 de agosto de 1965, por meio do Decreto nº 56.747, que considera duas questões importantes: o crescimento das pesquisas acadêmicas sobre a cultura popular brasileira, seja pelo viés antropológico, social e artístico, considerando este fato legitimador e que proporciona maior conhecimento das nossas tradições e ainda a divulgação desses personagens, histórias, mitos e causos passados de geração em geração. Além disso, a data foi escolhida por conta do uso pela primeira vez da palavra “Folk-Lore”, em inglês, no mesmo dia, em 1846 pelo britânico William John Thoms. Para o neologismo, ele juntou as palavras folk (povo) e lore (conhecimento).

Esta semana há ainda outra data importante: dia 26 é celebrado o centenário de Mestre Verequete, expoente do carimbó do Pará, conhecido por sua trajetória voltada para a composição de músicas no estilo chamado “carimbó pau e corda”, mantendo o tradicional esquema de produção do ritmo: com o curimbó e maraca, instrumentos feitos de madeira, e viola ou banjo. A data é também o Dia Municipal do Carimbó, instituído em 2004. Isaac Loureiro, coordenador da campanha Carimbó Patrimônio Imaterial, explica que o mestre tem muitos significados para a comunidade carimbozeira do Wstado, por sua atuação em diversas frentes.

“Para nós, o mestre tem uma gama de significados: é a experiência da resistência, da integridade do próprio gênero, da raiz, da tradição. Fez a carreira dele em cima de um princípio estético que era quase um princípio moral, que é o carimbó pau e corda. Ele tinha essa identidade e se manteve, tem toda uma coerência, até no último disco. Por outro lado, revela também como a sociedade e a indústria cultural trata e continua tratando como algo subalterno e na medida do possível tira proveito se utiliza do carimbó, nunca para dar condições ao artista e para o gênero se afirmar. Pega um pouco só para dar o cheiro no negócio, se afasta e se distancia. O mestre morreu numa idade avançada, doente e com muita pouca gente ao redor”, relembra, analisando criticamente.

INFLUÊNCIAS

De acordo com Loureiro, Verequete também usava elementos da Umbanda para compor suas músicas, com inclusão de tambores da religião. Ele explica também que o carimbó pau e corda refere-se aos instrumentos usados, o que diferencia de grupo para grupo. Além disso, letras são feitas pelos próprios mestres locais, quee falam do seu próprio universo, das comunidades ribeirinhas ou praianas, rurais ou interioranas, do local onde vivem e da natureza ao redor, as atividades que desenvolvem, se pesca ou agricultura, e das relações amorosas. É o cotidiano transformado em letra de música.

Para o antropólogo Pierre Azevedo, Mestre Verequete além de ser o difusor da cultura do carimbó nacionalmente e internacionalmente, com o grupo Uirapuru, também foi quem começou a despertar interesse pelos conceitos por traz da etnicidade na cultura amazônica. “Ele representa a tradicionalidade do carimbó, a música e a dança ligadas à questão étnica, do caboclo amazônico, do ribeirinho. Essa questão desponta nos estudos como sendo a representação da cultura amazônica. Historicamente, no momento em que ele surgiu com o grupo dele, na música popular, foi quando se difundiu a linguagem do carimbó pau e corda, e isso começou a ser delineado como o carimbó como uma cultura amazônica. Carimbó já tem 200 anos, mas ele foi o despontar desse entendimento”, diz.

Para celebrar os 100 anos de nascimento de Mestre Verequete, no próximo sábado, 27, será realizado VIII Pau & Corda do Carimbó 2016, na avenida Marques de Herval, Passagem Álvaro Adolfo, no bairro da Pedreira – local onde o mestre morou por quase toda a sua vida, organizado pelo Grupo de Carimbó Sancari. A atividade também solicita apoio a quem deseja auxiliar a manutenção das atividades desenvolvidas pela Campanha Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro, que apesar de ter sua conquita em 2014, com o reconhecimento pelo Iphan do carimbó como patrimônio cultural imaterial brasileiro, não se dissolveu e continua organizando eventos e ações para a salvaguarda do patrimônio.

(Dominik Giusti/Diário do Pará)

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