Notícias / Cultura

EDIÇÃO ELETRÔNICA

Mosaico de Ravena: o desabafo se tornou hino

Domingo, 13/01/2013, 06:47:40 - Atualizado em 13/01/2013, 06:48:10 Ver comentário(s) A- A+

Mosaico de Ravena: o desabafo se tornou hino  (Foto: Divulgação)
Edmar Rocha, ex-vocalista da banda Mosaico de Ravena, fala sobre a canção ‘Belém-Pará-Brasil’ (Foto: Divulgação)

Por muito pouco, Mosaico de Ravena não ficou sem seu maior sucesso “Belém-Pará-Brasil”. Composta pelo vocalista Edmar da Rocha, a música era vista como brega por parte da banda. “Eram outros tempos, quem era do rock só fazia rock. Ninguém se misturava. E aquela música cheia de referências regionais não descia goela abaixo da galera de jeito nenhum”, conta Edmar em entrevista por telefone do Rio de Janeiro, cidade na qual está radicado desde 1999.

Ela passou oito anos na gaveta até ser resgatada em 1992 durante a gravação do primeiro disco do grupo “Cave Canem”, após insistência do seu autor. Convenceu em parte os amigos de banda, que relutantes colocaram-na como a última faixa do lado B do LP. “Pra quem se lembra do vinil, esse era o lado menos nobre do disco. Por muito pouco ela não entra”, afirma.
O disco foi lançado no dia 25 de novembro de 1992, em um show na extinta boate Olê Olá. Em janeiro de 1993 a música já era a mais pedida da também finada Rádio Jovem FM, permanecendo assim aquele ano inteiro.

SENTINDO NA PELE

“Depois se alastrou em menor ou maior escala para as outras emissoras da cidade. Isso numa época que não tinha jabá [propina], a música era tocada por mérito. Me lembro que um tio do Rio de Janeiro veio nos visitar. No táxi do aeroporto o radialista anunciava o top 10 do dia: ‘Em segundo lugar Elton John com ‘Nikita’. Em primeiro lugar Mosaico de Ravena, com ‘Belém-Pará-Brasil’. Ele berrou: ‘Meu sobrinho, meu sobrinho é famoso’. Quase matando o motorista de susto”, relembra, em meio aos risos.

Desde então, “Belém-Pará-Brasil” se firmou como uma espécie de hino alternativo do Pará. O desabafo em forma de canção traduziu perfeitamente o sentimento de exclusão que os paraenses sentiam na época. “A quantidade de gente que regravou essa música ilegalmente não tá no gibi. Tirando a versão da Lucinha Bastos e de um ou outro, quase tudo é sem nosso consentimento. Já serviu de protestos de esquerda a propagandas ufanistas de direita. Acho que tocamos na ferida, por isso ela se tornou tão popular”, define.

Edmar tinha 16 anos quando compôs “Belém-Pará-Brasil”. O ano era 1985 e ele nem sonhava com a carreira artística, se dedicando ao curso de Arquitetura na Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi justamente em meio a aula de Desenho Técnico que teve um insight.

Como em um transe, começou a visualizar os trechos da música em visões proféticas de índios se empanturrando de fast food e arranhas céus em meio à floresta. “Enquanto trabalhava na prancheta veio a primeira estrofe. Nunca isso aconteceu comigo de novo, de escrever uma letra de uma vez só. Com começo, meio e fim sem sofrer uma única alteração. Fui pra casa correndo pegar o violão. O arranjo também veio muito rápido. A primeira pessoa a quem eu apresentei essa música foi o meu avô. Ele escutou e disse: ‘Que música bonita. É do Paulinho da Viola?’. Depois que eu contei que era minha, ele fez a previsão: ‘Ah! Essa música vai fazer muito sucesso!’”, revela.

Nascido em Brasília, Edmar se mudou para Belém aos 13 anos, para morar com a família da mãe paraense. Fã do rock brasileiro da época, como Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso, não perdeu a oportunidade de ir para o Rock in Rio em 1985. Apesar de ter adorado a oportunidade de ver de perto alguns de seus ídolos, ele teve uma experiência desagradável na viagem.

“Lá, eu pude perceber certo preconceito com o pessoal do Norte. Era uma coisa que eu desconhecia. Na época que fiz minha viagem pro Rio, já estava integrado à cultura papa-chibé, até sotaque eu tinha. E ouvi muita tiração de sarro: ‘Veio da floresta’, ‘Seu índio’. Esse foi o contexto em que ‘Belém-Pará-Brasil’ foi composta”, confessa.

Além de Edmar, Mosaico era composta por Leg nos teclados, PP D’Antona no baixo, Marcelo Pyrull na guitarra e Erick Van na bateria. Foi no Colégio do Carmo, em Belém, que o grupo se conheceu. “Éramos muitos jovens e bastante amigos. A banda era uma forma da gente se divertir. Em vez de bater uma pelada a gente se encontrava para ensaiar. Ninguém sabia tocar nada e fomos aprender juntos”.

Outra dificuldade é que não tinham instrumentos. Foi Edmar que ouviu falar que na Igreja da Sé havia uns instrumentos de uma antiga banda da paróquia. Eles estavam sem uso há algum tempo, empoeirados em um almoxarifado na torre do edifício. Quando abordaram o padre pra perguntar se podiam usar o equipamento, ele propôs uma troca. “A gente deveria fazer parte do coral da igreja e aos sábados e domingos podíamos tocar na torre”, diz.

“É a maior contribuição que eu poderia ter dado a Belém”

O primeiro show inclusive foi marcado pelo Monsenhor Nelson Soares, que na época era pároco. Foi no dia primeiro de setembro de 1986, na Quermesse da Nossa Senhora de Belém. Tocaram dentro da Igreja da Sé, apenas para os meninos do coral e os padres.

“Era uma cena surreal. Todo o alto clero vestido aqueles robes vermelhos, pareciam a Inquisição, uma cena de clipe do Judas Priest. Estava lá o Dom Alberto, Dom Vicente Zico. Apresentamos umas setes musicas nossas, dentre elas “Masoquista”. Da pra imaginar que não agradamos muito”, afirma.

O nome da banda também surgiu nesse show. “Nós estávamos ensaiando sem nome até a véspera da apresentação. Aí recorremos ao ‘Google’ da época para selecionar uma lista de nomes, a enciclopédia Delta Larousse. Gostamos da sonoridade de ‘Mosaico de Ravena’, que depois caiu como uma luva, por significar esse todo feito de diferentes partes. Éramos desse jeito”, define.

Na definição dele, “Belém-Pará-Brasil” antecedeu em alguns anos a tendência de valorização de elementos regionais no rock brasileiro. “Eu levei nove músicos do grupo de carimbó Tamba Tajá para o estúdio. Nunca se tinha visto nada igual. Anos depois eu recebi uma dos maiores presentes que podia ter como músico. O Pinduca se encontrou comigo e disse que só tinha a agradecer pela nossa música, que nós tínhamos feito os jovens se interessarem por carimbó de novo”, conta. A música inclusive lhe garantiu a medalha Francisco Caldeira Castelo Branco, prêmio concedido pela Prefeitura de Belém para pessoas que contribuíram a cultura do município.

Desde 1999 Edmar se mudou para a capital carioca, onde vive com a mulher e três filhos trabalhando como operador multimídia no teatro. Afastado da música desde 2007, quando lançou o CD e DVD “Memorial” em Belém, ele ensaia a sua volta com um uma carreira solo.

“Estou trabalhando há dez anos no meu CD solo. Quero explorar esse aspecto regional, gravei algumas coisas com o Manarí. Inclusive uma versão de ‘Belém-Pará-Brasil’. Que terá uma pegada de lundu, utilizando instrumentos indígenas. Ney Conceição (baixista paraense) que toca comigo no álbum, disse que eu deveria evitar uma regravação dela, mas essa música é parte de mim. É a maior contribuição que eu poderia ter dado a Belém, só me trouxe alegria. Se não sair no disco, disponibilizo na internet. Mas ela tem que ser ouvida”, afirma. Tomara que ele siga sua intuição novamente. Vimos que ela costuma não errar.

(Diário do Pará)

Leia também:

Comentários