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'Raio que o parta': modernidade com baixo custo

Terça-Feira, 08/02/2011, 18:34:27 Ver comentário(s) A- A+

'Raio que o parta': modernidade com baixo custo (Foto: Alexandre Moraes UFPA)
(Foto: Alexandre Moraes UFPA)

Fachada de casas com desenhos de raios coloridos. Percorrendo algumas ruas da cidade de Belém, é possivel encontrar essas imagens formadas por mosaicos de azulejos. Essa expressão arquitetônica denominada de "raio-que-o-parta" surgiu em Belém, na década de 1950, influenciada pelas tendências modernistas e, hoje, tenta sobreviver ao esquecimento e à falta de preservação.

O Modernismo brasileiro foi um movimento cuja linha principal era a valorização dos componentes de nossa cultura, oscilando entre a contestação de valores e a assimilação das formas do progresso. Os principais precursores e exemplos desse movimento foram as pinturas de Tarsila do Amaral, os escritos de Mário de Andrade, os painéis de Di Cavalcanti nos prédios modernistas de Niemeyer e Lúcio Costa e o paisagismo de Burle Marx, que introduziu a vegetação genuinamente brasileira em suas composições.

No início da década de 50, havia a preocupação em trazer para Belém as novidades da arquitetura moderna divulgadas no sudeste do Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Os estilos que interferiram na arquitetura da cidade - o Art Nouveau e o Art Déco - seriam os prefixos da arquitetura moderna local. Os princípios modernistas foram adaptados ao contexto local e, assim, as construções eram definidas pela vivência pessoal de seus produtores.

A arquitetura de cunho modernista adquiriu importância em Belém como uma manifestação plástica constituída de painéis figurativos. Na tentativa de modernizar as construções da cidade, mestres de obra, engenheiros civis ou proprietários de casas valeram-se da expressão arquitetônica "raio-que-o-parta". Essa expressão consiste na aplicação de mosaicos feitos com cacos de azulejos formando figurações diversas nas fachadas.
Painéis eram feitos com sobras de azulejos

Na maioria das vezes, estas figuras se assemelham a linhas retas e quebradas (ou raios) que remetiam às formas modernistas em evidência nas residências burguesas ou edifícios públicos da mesma época. O "raio-que-o-parta" faz parte de uma produção de arquitetura "não oficial" que caracteriza a maioria das metrópoles do terceiro mundo, sendo predominantemente residencial. De acordo com Cybelle Miranda, arquiteta e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), o "raio-que-o-parta" é uma expressão exclusivamente regional, pois, "até o momento, não se encontrou nada similar em outros Estados brasileiros", revela.

Para entender a origem dessa expressão arquitetônica, é preciso voltar um pouco no tempo. O uso do azulejo já era um material comum em muitas construções, entretanto era um artigo de preço elevado, utilizado somente por pessoas de alto poder aquisitivo.  Com isso, surge a hipótese de que os restos (cacos) de azulejos - rejeitos de obras - passaram a ter uma utilidade pela camada mais popular da população. Era possível alcançar a modernidade com baixo custo, ousadia e muita criatividade.

"É possível encontrar algumas casas no estilo neoclássico, cujos donos – de menor poder aquisitivo – queriam dar um ar mais moderno. Para isso, faziam algumas intervenções nas fachadas usando o ‘raio-que-o-parta’ como se fosse um aplique, uma maquiagem na casa. Mas também encontramos construções totalmente modernas que usaram essa expressão em suas concepções", explica Cybelle Miranda. Por que o nome "raio-que-o-parta"? Segundo a professora, esse nome foi atribuído devido às figuras geométricas terem forma de raios, principalmente nas platibandas (elevação superior da fachada que encobre a visão do telhado), depois, usado como um termo pejorativo, possivelmente empregado pelo arquiteto carioca Donato Mello Jr., que considerara a manifestação  arquitetônica de mau gosto.
Animais, símbolos religiosos e personagens

Essa manifestação arquitetônica era atribuída a um modismo e à falta de informação quanto ao contexto geral da Arquitetura. "Na época, arquitetos e acadêmicos consideravam o 'raio-que-o-parta' algo feio, desqualificado, ou seja, era uma arquitetura não erudita, feita por engenheiros projetistas", ressalta  Cybelle Miranda.

Nas ruas de Belém, exemplos de casas com fachadas que possuem traços e características marcantes do "raio-que-o-parta" podem ser vistas nos bairros  Guamá, São Braz, Jurunas, Cremação, Pedreira, Reduto, entre outros. Entretanto o "raio-que-o-parta" não foi característica arquitetônica somente de Belém, sendo encontrado, também, no município de Cametá e na Ilha do Marajó.

O modismo modernista em Belém também se manifestou por meio de outros elementos estéticos, como molduras de janelas com laterais inclinadas; pestanas protegendo portas e janelas; telhado inclinado para dentro do terreno; painéis em combongós (blocos quadrados e vazados) cimentados ou esmaltados em cores fortes; colunas finas em forma de "V", como apoio de marquises e coberturas. Cores vibrantes – Além das figuras geométricas em forma de raios, também eram feitas imagens de animais regionais, elementos da natureza, formas onduladas, símbolos religiosos, personagens de histórias infantis e letras formando palavras com o uso de cores vibrantes. Os cacos de azulejos não eram restritos às platibandas das fachadas, em alguns casos, eles apareciam em molduras de portas e janelas, em paredes laterais da residência, em muretas e em contornos de jardineiras.

Estudiosos consideram o "raio-que-o-parta" uma maneira de a cultura popular absorver, de acordo com suas possibilidades econômicas, a estética modernista. Para alguns, a expressão ressalta o verdadeiro valor da arquitetura brasileira. Mesmo estando presente, ainda hoje, em muitas residências da cidade, essa expressão arquitetônica é pouco valorizada. "Os proprietários dessas residências devem valorizá-las, pois esses desenhos contam um capítulo da história da Arquitetura moderna, no Pará, de grande importância para a memória da nossa cidade", diz a professora. (AScom UFPA)

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